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Fungos podem restaurar terras degradadas e combater crise climática
Cientistas lançam estudo na Mongólia sobre microrganismos invisíveis
Rafael Cardoso* - Enviado Especial
Publicado em 21/08/2026 - 07:38
Ulaanbaatar (Mongólia)
Brasília (DF), 21/08/2026 - Fungos podem restaurar terras degradadas e combater crise climática
Foto: Tomas Munita/SPUN© Tomas Munita/SPUN
Versão em áudio
Invisíveis a olho nu e espalhados em um sistema subterrâneo complexo, fungos são a aposta de um grupo de cientistas para restaurar terras degradadas, combater a desertificação e a crise climática.
A possibilidade foi apresentada pelas pesquisadoras Toby Kiers e Burenjargal Otgonsuren, que lançaram o resultado de estudos recentes, durante encontro na Embaixada da França em Ulaanbaatar, Mongólia, no contexto da 17ª Conferência das Nações Unidas sobre Combate à Desertificação (COP17).
Conhecidos como fungos micorrízicos, por estabelecerem simbiose com raízes das plantas, esses organismos formam extensas redes no solo. Enquanto recebem carbono produzido pelas plantas durante a fotossíntese, ajudam-nas a obter água e nutrientes como fósforo e nitrogênio.
Brasília (DF), 21/08/2026 - Fungos podem restaurar terras degradadas e combater crise climática
Foto: Tomas Munita/SPUN
Pesquisadoras usam fungos para recuperar solo e conter crise climática. Foto: Tomas Munita/SPUN
As redes também contribuem para agregar as partículas do solo, reduzir a erosão e aumentar a resistência das plantas à seca e a outros estresses ambientais.
A estratégia testada durante os estudos na Mongólia é simples: pequenas áreas de pastagem são cercadas para impedir temporariamente a entrada de animais e a ação humana.
Essas áreas protegidas podem funcionar como refúgios de biodiversidade subterrânea e, no futuro, como fontes de fungos locais para projetos de restauração de terras degradadas, explicou a bióloga evolucionista Toby Kiers, diretora-executiva da Society for the Protection of Underground Networks (SPUN).
“É como um banco de sementes, mas de fungos. Eles criam uma infraestrutura viva subterrânea que mantêm o solo unido. São como um sistema circulatório que conecta a vida acima e abaixo do solo.”
Um solo mais estável e com uma comunidade microbiana saudável oferece melhores condições para o retorno das plantas, que, por sua vez, alimentam novamente os fungos com carbono.
“É um ciclo. Você perde a diversidade de fungos, perde o carbono que está entrando no solo e perde parte da capacidade de manter o solo unido. Isso dificulta o crescimento das plantas e pode alimentar ainda mais a degradação”, disse Toby Kiers.
Pastagens em recuperação
A estratégia ainda está em fase experimental, com a liderança da pesquisadora local Burenjargal Otgonsuren. Ecóloga especializada em micorrizas (associação entre fungos e raízes das plantas), ela cresceu em uma região rural da província de Uvurkhangai e passou parte da infância acompanhando os avós, que eram pastores.
A experiência também influenciou sua escolha profissional. Ela contou que o avô conhecia as plantas das pastagens e sabia identificar aquelas associadas à qualidade do campo ou utilizadas para fins medicinais. “Tornei-me uma ecóloga que pode ajudar a tratar o planeta.”
A especialista instalou seis áreas cercadas em regiões de estepe e deserto para interromper temporariamente a pressão do pastoreio. Os primeiros resultados, obtidos em 2025, são promissores: a vegetação dentro das áreas protegidas já apresentava maior altura do que as plantas encontradas fora das cercas.
A pesquisadora pretende acompanhar os experimentos por pelo menos três anos. Entre as possibilidades futuras está a criação de corredores ou áreas de refúgio mais amplas para conservar os fungos.
Segundo Burenjargal Otgonsuren, pesquisas indicam que até 91% das pastagens degradadas da Mongólia poderiam ser recuperadas em algum grau. Para isso, porém, não basta replantar a vegetação.
“Para recuperar a pastagem, a questão mais importante é ter um solo saudável. E, quando falamos de solo saudável, precisamos também proteger a biodiversidade que vive dentro dele.”
Biodiversidade ainda desconhecida
A dimensão da biodiversidade encontrada nas estepes mongóis surpreendeu as pesquisadoras. Nas amostras coletadas, cerca de 90% das sequências de DNA fúngico analisadas pertenciam a espécies ainda desconhecidas pela ciência.
Brasília (DF), 21/08/2026 - Fungos podem restaurar terras degradadas e combater crise climática
Foto: Tomas Munita/SPUN
Fungos em microscópio. Foto: Tomas Munita/SPUN
Foram identificadas 541 unidades taxonômicas associadas aos fungos micorrízicos apenas na região do Gobi. Parte desses organismos parece ser altamente adaptada às condições locais e pode não ocorrer em outras regiões do planeta.
Isso torna a conservação dos fungos locais particularmente importante. A ideia não é simplesmente transportar fungos de outras regiões para áreas degradadas. “Precisamos proteger essas espécies endêmicas e reproduzi-las nós mesmos para depois utilizá-las”, afirmou Otgonsuren.
Nova agenda de conservação
Para Toby Kiers, a descoberta reforça a necessidade de mudar a forma como políticas ambientais tratam a biodiversidade. Em geral, esforços de conservação se concentram em plantas e animais visíveis, enquanto os organismos subterrâneos permanecem fora das áreas prioritárias.
“Precisamos superar esse viés em favor do que está acima do solo e começar a proteger aquilo que não conseguimos ver.”
Segundo a pesquisadora, cerca de 90% dos hotspots de biodiversidade microbiana identificados pela SPUN estão fora de áreas protegidas. Ela defendeu que fungos passem a ser incorporados às políticas de combate à desertificação e aos instrumentos de monitoramento da degradação da terra.
A organização já trabalha com pesquisadores e comunidades locais em diferentes partes do mundo para mapear essas redes subterrâneas. A proposta é que o conhecimento produzido localmente seja incorporado a um atlas global e também às políticas públicas.
“Estamos convidando as pessoas a integrar os fungos às políticas”, ressaltou. “Eles são componentes vitais de como monitoramos e combatemos a desertificação”, completou.
*O repórter viajou para a Mongólia a convite da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), após seleção entre jornalistas de diversos continentes.
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Edição:
Talita Cavalcante
COP17 da Desertificação
crise climática
fungos
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