Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.
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João Cabral de Melo Neto foi um poeta e diplomata brasileiro. Sua obra poética, vai de uma tendência surrealista até a poesia popular, porém caracterizada pelo rigor estético.
☆ Nascimento: 1920-01-09 Recife, Pernambuco, Brasil
+ Falecimento: 1999-10-09 Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil
Assim como Catar feijão, Tecendo a manhã pode ser considerado como um meta-poema, isso porque o tema central da lírica é a reflexão sobre a construção do próprio poema.
Trata-se de uma linguagem que se dobra sobre si mesma e que enfatiza o processo de composição do trabalho. Lançado em 1966, a pegada dos versos é extremamente poética e lírica e é capaz de transmitir ao leitor a beleza da criação a partir de exemplos cotidianos e fortuitos.
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