Cláudio Carvalho Fernandes
"A existência precede a essência"
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Textos

Poemaático

 

http://www.solcultura.com.br/noticias.asp?id=2415&secao=Refile

 

 

Laerte Magalhães

 

Poemaático

25/01/2007

 

 

Chegam-me às mãos alguns poemas de Cláudio Carvalho Fernandes. Conheço Cláudio há alguns anos, convivemos em sala de aula e nos espaços do SG-04, prédio que abrigou por aproximadamente 18 anos o curso de Comunicação Social da UFPI, em Teresina: ele na condição de aluno e eu, professor. Mas, não conhecia sua poesia. Leio com gosto os versos forjados na labuta do poeta, como se ainda em brasa, recém tirados do forno. Cláudio sempre me passou esta impressão de um destes artesãos que lidam com a dureza de amaciar matérias indóceis. Sua poesia retine e flameja ao mesmo tempo e nos dão a sensação daquilo que está em busca de sua melhor forma.

 

No poema “(Sobre) o cadáver da beleza”, retém por instantes a chama com a qual há de moldar os sentidos de algo dantes anunciado, como a sugerir “que mesmo a vida já teria sido sonhada alguma vez”. A sensação como experiência se contrapõe à dúvida poética da existência e deixa espaço para outras viagens no campo das crenças.

 

Noutro poema, “De Versos”, põe sobre a bigorna a lente do que é transitório, do que transeunte e, no entanto, deixa marcas, ficam vazios: “a dor de passar pelas pessoas / e depois deixa-las me consome: / como viver tantas coisas boas / só para alimentar de saudades essa fome?”. A vida é um prazer de ofertas e de perdas. Cortar e dobrar lâminas em puro aço linguageiro remói a mente e se esvai a alma em transpirações de ar e sangue. Percebamos que a matéria é o viver e seus percalços, suas dores. Isto tudo é cimentado por uma fome que tem a falta, a perda, como metáfora. Até o contato da marreta contra a lâmina e que faz tomar uma forma é depois uma marca, uma pista, uma cicatriz.

 

A matéria bruta se transmuta em delicadeza no olhar que confirma, no comercial de TV, as sugestões erotizadas de uma promessa que nunca cessa de prometer, de um desejo sem sentido, irrealizável: “A TV me promete / o leite da moça, / o prazer em pó, líquido, / instantâneo, / integral...”. O poeta transforma a dúvida em sugestão por um princípio do que é comum no universo da vivência, e a pergunta é, de fato, uma revelação: “o que faremos de nossos olhos, / de nossas mãos?”. O segredo ou o degredo do poeta assume sua forma pública, como purgação, como penitência.

 

Além do tempo despendido no ofício de dar formas mais ou menos estáveis aos versos, aos poemas, dedica-se ainda a experimentar, quando entre um e outro gesto escapa às mãos uma intenção mais concreta. É assim, por exemplo, em “Amar é...”. Diz: “Como as águas do mar, / em balanço louco de vida, / minhalma vai se encontrar / na chegada da parte ida”.

 

A alma do poeta faz percursos que ele apenas observa. A vida experimenta lugares, pessoas, coisas e imagina o experimento de outros tantos embates. Do seu lugar, põe-se a ir juntando fragmentos, relatos, impressões e a amalgamar tudo em sua poesia, impregnada que está das imagens apreendidas, dos desesperos da lida.

 

Mas o trabalho de transformar as coisas do mundo em sensações poéticas não é simples e muito menos fácil. Carece de investimento corpóreo, de sofrimento, de desprendimento e, acima de tudo, de disposição para forjar na folha do aço mais bruto as formas que vão acarinhar o leitor e, ao mesmo tempo, desestabiliza-lo, feito um convite a estender a vida para além do que é visto ou vivenciado, meramente.

 

Devo dizer que chego à última página destes poemas com boas lembranças do percurso feito na companhia de Cláudio Carvalho Fernandes. Melhor ainda, motivado à leitura de suas próximas publicações. Estou sabendo que o Cláudio está, junto com outro excelente poeta, Elias Paz e Silva, tramando uma nova empreitada. Vamos à ela, então.

 

 

 

Francisco Laerte Juvêncio Magalhães

Doutor em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2002), Mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1998), Especialista em Comunicação e Imagem pela Universidade Federal do Ceará (1995) e graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará (1982). Atualmente, é professor do Curso de Comunicação Social na Universidade Federal do Piauí, onde leciona disciplinas de telejornalismo; é professor permanente do Mestrado Acadêmico em Letras, na mesma instituição, onde leciona as disciplinas Análise de Discursos, Imagens e Produção de Sentido e Análise de Discursos em Recepção. Coordena o Núcleo de Estudo e Pesquisa em Estratégias de Comunicação - NEPEC e tem experiência em jornalismo, com ênfase em audiovisual, atuando, principalmente, nos seguintes temas: Estudos de linguagem (Análise de Discursos), imagens (fixa e em movimento) e publicidade (criação e produção de RTVC).

 

 

 

 

 

 

 

 

Cláudio Carvalho Fernandes e Laerte Magalhães
Enviado por Cláudio Carvalho Fernandes em 14/02/2026
Alterado em 14/02/2026
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