Cláudio Carvalho Fernandes
"A existência precede a essência"
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***** Soneto da Terça ***** 

***** Jamerson Lemos *****                       

 

 

 

 

 

 

 

Jamerson Lemos

 

Soneto da Terça

 

 

 

quando você se entristece

 

uma coisa qualquer se me entrista.

 

um gole de rum a mais que eu insista

 

é coisa pouca e você não esquece.

 

 

 

 

 

quando, porém, se nada teça

 

vida minha e pobre de artista

 

você me toca e me diz: desista

 

meu bom amor, amo-te na terça.

 

 

 

 

 

muito bem, tento-te de novo

 

alma de pombo, espírito de corvo,

 

sobras-te-me na estação.

 

 

 

 

 

JAMERSON LEMOS - BIOGRAFIA

BIOGRAFIA

 

por:

Francisco Miguel de Moura*

 

Jamerson Moreira de Lemos nasceu em Recife (PE), em 22-12-1945 e faleceu recentemente em Teresina (5-8-2008). Poeta, deixando sua terra, viveu alguns anos em São Luís (MA), onde certamente se contaminou com a boa poesia daquela Província iluminada, de Gonçalves Dias a Ferreira Gullar, pra não falar nos mais novos. Tanto é verdade que o seu primeiro livro foi editado pelo Governo do Maranhão, com a participação da Academia Maranhense de Letras, no final da década de 60, século XX. Sempre o parto do primeiro livro é longo, por vários fatores que não cabe aqui explicar. Não poderia ser diferente com Jamerson Lemos. Saiu com o nome da “Superfície do Vento”, 1968, seleção de um calhamaço que me mostrara antes, com o título provisório de “Cerca de Arame”. Depois publicaria ainda “Sábado Árido” (1985) e “Nos Subúrbios do Ócio” (1996), ambos em Teresina. Deixou muitos inéditos, entre os quais “Istmo Soledad”, ao qual dei um prefácio já publicado aqui e alhures, situando sua poesia e seu fazer poético entre os melhores cultores da poesia-práxis, uma corrente derivada do concretismo, cujos poetas brasileiros mais conhecidos são Mário Chamie, Armando Freitas Filho, Mauro Gama e Adailton Medeiros (este natural de Caxias-MA). Esse modo de fazer poesia valoriza o ato racional de compor e busca um sentido intercomunicante entre versos e palavras, tudo integrado ao real quotidiano, objetivo, ou seja, o dado social-histórico vai de braços dados com a poesia e a pesquisa semântica ou semiológica. Quem mais se celebrizou neste “sertão-vereda” foi o João Cabral de Melo Neto, pernambucano como Jamerson Lemos. A preocupação maior com letras, sílabas e palavras do que com o espaço em branco ou preto da página faz da poesia de Jamerson um antilirismo que a muitos preguiçosos assusta. Mas, se bem observada, sua poesia é de um apaixonado das coisas belas, dos sentimentos mais puros e da riqueza na expressão, num estilo que parece desinteressado da vida e do real, deixando visível a veia do bom humor em todos os poemas.

 

A poesia-práxis é do Brasil dos anos 60. O CLIP – Circulo Literário Piauiense, movimento daquela década, de certa forma enquadra bem a poesia deste poeta que entrou para a convivência dos clipianos. Se do CLIP não fez parte oficialmente, foi por ter chegado ao Piauí pouco depois. Mas, de tal maneira integrou-se aos criadores do CLIP (Hardi Filho, Chico Miguel e Herculano Moraes), que seria pecado não incluí-lo nessa geração cujos efeitos ainda ressoam.

 

Casado com dona Maria das Dores de Morais Lemos, funcionária dos Correios já aposentada, Jamerson Lemos deixa órfãos seus dois filhos: Juninho e Ceres Josiane.

 

Duas vidas: uma, a familiar e sentimental como poucos; outra, a profissional, onde se desdobra para conciliar o vendedor de imóveis com o poeta. Reconhece Alberoni Lemos que não foi fácil ao poeta Jamerson Lemos. Daí que é impossível saber bem de sua poesia sem o conhecimento do homem, que se dizia descendente de judeu, em seus conflitos filosóficos e existenciais – acrescenta o grande homem de imprensa, Alberoni Lemos.

 

Mas, um pouco da poesia jamersoniana fará bem, seria mesmo imperdoável que não se oferecesse ao leitor. Então, com o título “Do movimento à noute” vai como exemplo:

 

“O mistério da espuma do mar / é não haver mistério algum. / Fundo longilíneo / maravilhoso o mar não se sabe um / convite à morte ao amor à / vida. Há mistério, há? // A espuma do mar longe de ser algo / incógnito, transcendental, flora / estrelinhas nas algas, águas, / sargaços e areia, namora / da luz às conchas, à lua minguante / e permanente se renova.” // Do mar o mistério da espuma / inexiste – bolhitas ou escumas –/ existe o mistério à bruma / de noite à noute uma a uma / a onda virada serpente / engole a solidão da gente.” (in “O Estado”. 04-10-87, Teresina, PI).

 

Hardi Filho considera que “J. Lemos, o boêmio navegador de ares e bares, nos dá um exemplo de modernidade poética soberba e despreocupada”, enquanto A. Tito Filho diz que “no poeta há sobretudo intensidade de expressão artística e estranho brilho verbal”.

 

Sim, mas resta dizer que Jamerson Lemos, da geração dos anos 60 (leia se CLIP), além de sua participação na vida cultural no meio piauiense, registrou-a valorosamente com dois prêmios importantes que recebeu, no Piauí: um da Academia Piauiense de Letras e outro da Fundação Cultural do Piauí, ambos de poesia. Desta forma, é impossível que o Piauí não o reconheça como seu poeta, aliás um dos mais singulares, como consta de “ A Poesia do Piauí no Século XX”, antologia organizada por Assis Brasil, Editora Imago, Rio, 1995.

 

3 POEMAS de JAMERSON LEMOS:

 

NAS RUAS

 

não mais voltarei aqui

seguirei as curvas do vento

tentar não tendo

assim eu me perdi

 

nada do que vi vi

nisso me acalento

foi bom todo momento

vivi

 

subida descida

noite amanhecida

espuma do Mar

 

tempo sem bruma

lua me luma

ar

 

 

 

DEPOIS DO DESERTO

 

Maripositas brincam da luz

pepitas vivas no Ar

não cansam de voar

em xis e em cruz

 

meu peito vive a bailar

assim me conduz

Mariposa me reluz

à Luz do Luar

 

sigo por essa Rua

de Alma nua

nem sei pronde vou

 

tenho pouco de oiro

trago-a cravada no coiro

antes do Vôo

 

 

 

 

CHARADA

 

Uma pessoa não é só uma

São duas três pessoas

Enigma incógnita bruma

Noite misteriosa voas

 

Tranquilidade noturna das lagoas

Cabeça como sino soas

Diz-me que alma é verruma

Quantos somos em suma?

 

Vida é viagem

Viajar e margear

Floresta deserto penhas miragem

 

Corpo uma bagagem

Flor a florar

Passagem.

 

 

_________________

*Francisco Miguel de Moura, membro da Academia Piauiense de Letras, poeta e romancista, crítico e cronista, pertence à Geração do CLIP, anos 60 brasileiros.

 

 

 

 

 

 

 

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Cláudio Carvalho Fernandes, Jamerson Lemos (Autor do Poema ***** Soneto da Terça), Francisco Miguel de Moura e Revista Cirandinha.
Enviado por Cláudio Carvalho Fernandes em 20/12/2025
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