Entrevista com o Poeta Aloísio Vilaça, de BELO HORIZONTE, MINAS GERAIS :
01- A literatura em você, quando surgiu? Por que e como começou a se interessar por literatura e poesia? Tem lembranças de quando surgiu a “sensibilidade estética à palavra” em você? Qual o seu primeiro contato com a literatura?
- RESPOSTA: Sempre gostei de ler. Desde criança, rabisco alguns poemas. Atualmente, escrevo poemas autobiográficos, em grande parte. Creio que a “sensibilidade estética à palavra” surgiu em mim, quando tentei pronunciar, pela primeira vez, a palavra “mamãe”? Meu primeiro contato com a literatura aconteceu nos anos iniciais de minha formação escolar, mas tenho lembranças de histórias contadas por minha mãe, ainda em casa, na fase pré-escolar.
02- Qual é a função da literatura e, mais especificamente, da poesia? Poesia e literatura servem para quê? O que se busca na poesia? Qual é O principal desejo de poeta/poetisa? É a eternidade?
RESPOSTA: A meu ver, a literatura é uma das formas de expressão humana. A poesia é expressão estética, expressão da vida. Poesia e literatura servem para eternizar sensações e pensamentos, e transmiti-los. Servem, também, como alívio para o sofrimento, terapia para a alma e oportunidade de reflexão filosófica, dentre tantas outras “utilidades”. Com a poesia, busco a materialização do que sinto e penso sobre a maravilha da oportunidade de viver e de me aprimorar, como ser humano; desejo transmitir o que me vai na mente e no coração. Eternidade é, sim, a palavra –ou, quiçá, uma delas!
03- Como tem sido a experiência de trabalhar/batalhar pela poesia e pelas letras num aplicativo de internet como o “Meu Poema”? As leitoras/Os leitores têm interesse por literatura de qualidade e, especificamente, por poesia?
- RESPOSTA: A experiência continua sendo excelente. O aplicativo "Meu Poema" estimula a criatividade e a produção de textos. Minha expectativa em relação aos leitores não é boa - creio que o gênero Poesia esteja, atualmente, meio à margem da moda.
04- Para você, o que é e o que não é literatura ou o que é e o que não é poesia? Poesia é algo para se levar a sério – pode transformar as pessoas e o mundo – ou é, para você, só uma “recreação do 'espírito'”?
- RESPOSTA: Considero literatura e poesia instrumentos de expressão e de transformação. Há textos inspiradores. Poesia é, sim, algo para se levar a sério, penso. Pode ser "recreação do espirito", também, creio. Repito: a meu ver, a literatura é uma das formas de expressão humana. Acrescento: dentre tantas, a Poesia, é uma das mais sublimes delas.
05- Quanto ao processo de construção de seus poemas/textos, você rascunha esboços? Como se dá predominantemente o seu processo criativo? O escrever é natural, sob inspiração, aleatório e espontâneo ou sob a decisão de escrever algo sobre algum tema? Existem certos dias, ou ocasiões especiais, em que você trabalha/escreve melhor do que em outros? Ou a poesia é exclusivamente labor e transpiração? Drummond ( = inspiração ) ou João Cabral ( = labor )?
- RESPOSTA: Eu continuo rascunhando alguns poemas; outros, não. Alguns surgem quase prontos e, às vezes, prontos. Tenho me interessado pela temática do desenvolvimento humano, e às vezes concedo-me a oportunidade da exceção. Observo que minha criatividade é maior nas manhãs. Meus poemas são frutos de minha inspiração, mais que de meu labor. Sou apaixonado pela vida! Não raro, crio poemas “sob encomenda” de minha própria expectativa.
06- Em geral, você é mais otimista ou pessimista em relação à vida? Como você definiria sua poesia/escrita? Você é um poeta mais dionisíaco ou mais apolíneo?
- RESPOSTA: Minha poesia é uma declaração de amor à vida, aos seres e ao mundo. Sou otimista, embora meus textos não revelem, à primeira análise, tal perspectiva. Quem me lê, pensa, de início, que me queixo, mas se se aprofunda, constata que o conjunto de meu texto revela minha ânsia pela vida, e o desejo sincero de esgotar as possibilidades da existência humana.
07- Que poet(is)as/autoras/es você lê? Tem preferências por alguns locais, nacionais ou internacionais? Cite 10 autoras/es indispensáveis em todos os tempos ou estilos de época para a compreensão, percepção e degustação do fenômeno literário no seu estado, no Brasil e no mundo. Quais as/os autoras/es que mais lhe influenciaram? Cite algumas/ns poet(is)as e/ou escritoras/es pelas/os quais você tem admiração.
- RESPOSTA: Sou leitor e admirador de Florbela Espanca, Cecília Meireles, Rumi, Kalil Gibran, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Gonçalves Dias, J. G. De Araújo Jorge, Ariano Suassuna, Olavo Bilac, Castro Alves e Carlos Drummond Andrade, dentre outros tantos.
08- Hoje em dia, com as facilidades do mundo moderno, cheio de mil e sempre mais uma opções (ou “opções”), ainda há espaço para a poesia, diante da variedade de coisas, muitas delas de qualidade duvidosa, oferecidas diariamente para as pessoas? Qual é o sentido de escrever poesia hoje, numa sociedade regida pela mídia e pelo mercado? Dá para acreditar em alguma coisa atualmente? Alguma utopia?
- RESPOSTA: Há espaço, sim, creio. Penso que o espaço da poesia, como "produto" seja muito pequeno, mas vejo-a como representativa de uma espécie de resistência. Escrevo sobre o que me toca; escrevo porque escrevo; só por isso.
09- Existe algum poema, frase ou pensamento que sempre lhe acompanhou ou acompanha por toda a vida? Qual ou quais?
- RESPOSTA: Há vários. Um pensamento: "Hei de vencer". Um poema: "Ouvir estrelas" (Olavo Bilac)
10- Como tem sido o interesse por suas obras já publicadas, se já as tem? Os leitores têm procurado muito por elas? Quem são as pessoas que a(s) procuram? Vale a pena lutar pela cultura e literatura, especialmente a poesia?
- RESPOSTA: Publiquei, recentemente; a aceitação dos leitores foi excelente; a procura ainda é pífia; a oferta, grande. Vale, sim - e muito - a pena lutar pela cultura e, em especial, pela poesia. Afinal, a cultura é uma de nossas formas de expressão, caracteriza o ser que somos.
11- Qual(is) você considera que seja(m) o(s) seu(s) melhor(es) poema(s)? Cite um trecho dele(s).
- RESPOSTA: Não sei qual seria meu melhor poema. Não sei sequer se são bons, sinceramente. Gosto de alguns, que me representam - sou um sonhador. Um trecho que me agrada:
Meu ofício
Debulhar estrelas em noites claras
De céu de lua cheia e nuvens raras
Colher flores e recolher espinhos
Nos jardins de estradas e caminhos
Dedilhar cordas e entoar canções
Suscitar e despertar emoções
Decifrar enigmas e mistérios
Sanar crises e dilemas etéreos
Aliviar dores e sofrimentos
Estender a mão e ouvir lamentos
Saciar a sede de irmãos sedentos
Dedicar à paz todo sacrifício
E abdicar de qualquer artifício
Eis o meu dever; tal é o meu ofício
12- O que você acha da utilização da internet e de outros meios ditos modernos para a divulgação de obras e autores? O livro físico (impresso) corre algum perigo de extinção?
- RESPOSTA: Penso serem excelentes a internet e os outros meios ditos modernos para a divulgação de obras e de autores. Creio que livro físico (impresso) não corre perigo de extinção. O livro impresso tem seu lugar (nos corações dos apaixonados).
13- Você tem participação em concursos literários? Como a poesia marca seu dia a dia e sua vida? E quais as dificuldades enfrentadas por uma/um escritora/escritor poet(is)a para publicar sua(s) obra(s)?
- RESPOSTA: Participei uma vez, apenas, de um concurso literário. Escrevo, rotineira e diariamente. Compro livros de poesia. Leio. Hoje em dia, publicar um livro, de maneira independente, não é tarefa das mais difíceis, penso, exceto no que diz respeito aos custos. Depender de uma editora é, lá, outra coisa.
14- Parece que as pessoas, comumente, não veem da melhor forma possível o “novo” nas artes em geral. Por que isso acontece? Qual a sua opinião sobre a inovação na poesia e nas artes? Há perigos na busca constante por inovação? Você acha que esta tendência se acentuou nos últimos anos?
- RESPOSTA: O novo assusta, incomoda. Creio que a inovação, na arte e na poesia, seja natural, necessária e importante, na medida em que a arte nada mais é do que a própria vida, em exercício. Logo, indesvencilháveis. A vida é mudança. Os perigos da inovação existem, como sempre: incompreensão, críticas, alheamento etc. Creio que essa tendência se acentuou muito, nos últimos anos, como, de modo geral, quase tudo, na vida moderna, notadamente porque o ego passou a ser o centro de todas as coisas.
15- Qual o tipo de público que mais aprecia as suas obras? Há interesse das novas gerações (de dezesseis, dezoito anos) pela literatura e cultura, especialmente pela poesia?
- RESPOSTA: Não tenho noção de que público mais aprecie meus poemas. Creio que pessoas mais maduras. O interesse das novas gerações pela literatura e pela cultura existe, sim, creio, mas com parâmetros novos, mais livres. Quanto à poesia, creio que nem tanto.
16- Qual é o seu olhar sobre a arte (contemporânea)? Como você vê a situação atual da literatura no seu estado? E no Brasil? Existe apoio de algum tipo ou mesmo incentivo para a produção cultural, literária e, especialmente, de poesia?
- RESPOSTA: Penso que produção da arte contemporânea tem sido caracterizada pela diversidade e pela liberdade de expressão. Em meu estado, a arte tem passado seus apertos, assim como no Brasil, em geral. Existe, sim, apoio e incentivo para a produção cultural e literária, embora reduzido, penso. Desconheço iniciativas de apoio e incentivo à poesia.
17- Que conselhos você daria para quem está iniciando na área da literatura e de poesia?
- RESPOSTA: Escreva, incondicionalmente!
- Agora, “jogo rápido” para as perguntas/respostas seguintes:
18- O que te faz feliz?
RESPOSTA: Existir me faz feliz; viver me faz feliz; estudar me faz feliz; trabaljar me faz feliz; servir me faz muito feliz!
19- Um momento que definiu sua vida?
RESPOSTA: Meu nascimento definiu a minha vida.
20- Qual a sua maior qualidade?
RESPOSTA: A determinação, creio, seja minha maior qualidade.
21- E seu maior defeito?
RESPOSTA: Meu maior defeito é o perfeccionismo, creio.
22- Quem te inspira?
RESPOSTA: Meu pai e minha mãe são meus mestres e minha inspiração.
23- Melhor conselho que já deu?
RESPOSTA: Desenvolva sua humanidade!
24- Do que você tem orgulho?
RESPOSTA: Tenho orgulho de minha história de vida.
25- Tipo de gente que você tem dificuldade para conviver?
RESPOSTA: Tenho dificuldade para conviver com pessoas que falam muito, sem propósito.
26- Qual a melhor década? E por quê?
RESPOSTA: Creio que a melhor década em que vivi tenha sido a dos anos oitenta. Época de muita intensidade, criatividade e sentimento. Penso que a época me agradou por se tratar, também, da melhor fase da minha vida: minha adolescência.
27- O melhor dos anos 80?
RESPOSTA: O melhor: intensidade, criatividade e sentimento.
28- E o melhor dos anos 90?
RESPOSTA: O melhor: as mudanças ocorridas, em nível nacional e internacional.
29- Um sonho?
RESPOSTA: Ver o meu País independente.
30- Qual a característica mais importante em uma mulher?
RESPOSTA: A sensibilidade.
31- E em um homem?
RESPOSTA: A simplicidade.
32- O que mais aprecia em seus amigos?
RESPOSTA: A fidelidade.
33- O que seria a maior das tragédias?
RESPOSTA: O fim do mundo.
34- Maior conquista como profissional?
RESPOSTA: Aprovação em um concurso público de nível nacional, na área jurídica.
35- Ideia de felicidade:
RESPOSTA: Sentir que me desenvolvi em cada dimensão da vida, como homem [humano].
36- Maior conquista até agora?
RESPOSTA: Haver sido pai, e haver criado meu [bom] filho.
37- Qual o defeito mais fácil de perdoar?
RESPOSTA: A ignorância.
38- E a maior das qualidades?
RESPOSTA: Servir.
39- O que é sagrado para você?
RESPOSTA: Minha família.
40- Quais são seu filmes preferidos?
RESPOSTA: Alguns filmes que me marcaram: Como estrelas na terra, Star Wars, A doce vida, E.T. – O Extraterrestre, Laranja Mecânica, Alien, o 8 Passageiro, Toy Story, Matrix, O Rei Leão, Avatar, Gladiador, 12 homens e uma Sentença, dentre outros.
41- Indique 5 (ou mais) livros em todos os tempos, desde a infância até agora, de que você gostou bastante.
RESPOSTA: Dom Casmurro, Ética a Nicômaco, O menino do dedo verde, Dom Quixote de La Mancha, 1984, O pequeno Príncipe, Crime e Castigo, Olhai os lírios do campo ...
42- O que lhe tira o sono e o que lhe tira do sério?
RESPOSTA: A certeza de que um dia perderei meus pais.
43- O que não entra em sua casa?
RESPOSTA: Drogas, televisão aberta, refrigerante, ideias negativas, preguiça, ideias “conservadoras” ...
44- Segredo para o sucesso profissional?
RESPOSTA: Conhecimento, prática e atitude. Pensamento + emoção + ação + oração (para quem crê)
45- Quem você gostaria de ser se não fosse você mesma/mesmo?
RESPOSTA: Se eu não fosse eu mesmo, eu gostaria de ser eu mesmo.
46- Que superpoder gostaria de ter?
RESPOSTA: O poder de curar.
47- Indique um (ou uns - 5 – ou mais) livros que você leu RECENTEMENTE e gostou muito e 3 que você gostaria de ler ou ainda pretende ler.
RESPOSTA: Gostei muito: Quarto de despejo, Cânticos (Cecília Meireles), 1984 (George Orwell), Metafísica (Aristóteles), Ética a Nicômaco (Aristóteles), A república (Platão), Confissões (Santo Agostinho), Pedro Páramo (Juan Rulfo). Pretendo ler: O físico, Grande Sertão: veredas, O nome da Rosa, A queda do céu, Geração ansiosa.
48- O que acha do pensamento do jornalista e poeta egípcio Salamah Mussa, de que "Não é a beleza o objetivo da literatura e sim a humanidade"?
RESPOSTA: O conceito de estética (do grego, “aisthésis”) tem a ver com a sensação de se estar vivo. Belo é o que denota vida. Nesse sentido, penso, ao se interessar pela estética, a literatura traduz a nossa humanidade e, ao tratar de nossa humanidade, a literatura aborda a estética. Estar vivo é belo, em si!
49- O que diz sobre a expressão de Paul Valéry, “O objetivo profundo do artista é dar mais do que aquilo que tem”?
RESPOSTA: Realmente, a arte excede o artista.
50- Concorda (ou não), numa perspectiva geral, e, em especial, na literatura, especificamente na poesia, visto que um dos autores da frase (o filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre) também foi literato (engajado), que “A existência precede a essência”? Qual (ou quais) o(s) seu(s) "mote"(s)/pensamento(s) preferido(s)? E o que pensa sobre literatura (especialmente poesia) engajada?
RESPOSTA: Concordo, parcialmente. O processo de individuação que é próprio de cada um de nós vai nos formando, aos poucos. Mas, por outro lado, há em cada um algo que nos acompanha, desde sempre, e que traduz a nossa essência. Meu pensamento preferido reside na ideia de que, como homem, devo desenvolver minha humanidade, no espaço de tempo de que disponho. Penso que a poesia possa [e deva] ser uma forma [interessante e eficiente] de discurso. Gosto da ideia de poesia engajada – e da ideia de engajamento, como princípio de vida.
51- Qual(is) você considera que seja(m) a(s) sua(s) maior(es) qualidade(s) como escritor(a)/poet(is)a?
RESPOSTA: Abertura para o novo, domínio da língua portuguesa, experiência de vida, gosto pelas letras, sensibilidade.
52- Para finalizar, expresse algo que deseja tornar público e que ainda não tenha sido mencionado anteriormente ou que você queira destacar. Palavra aberta, à vontade.
RESPOSTA: A vida é muito curta para ser desperdiçada. Viva a vida!
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