jus
para a beleza
de todos os meus desejos
apenas este, mais nenhum:
gastar todos os meus beijos
pra te dar ao menos um!...
para minha amiga Mara
você é um poema da natureza
dizendo que a vida vale o enquanto
durar o vir ver a tua beleza
no infinito instante deste encanto
musamada passeava pelos campos em alegria
quando confusa abelha pica-lhe o peito
pensando ser, talvez, uma outra flor que havia
desabrochado no ar, por algum mágico efeito
“Eu”, atento fauno, de plantão, todo insuspeito,
apressa-se em aliviar a dor que a crucia,
com muito remédio, da mesma abelha, de mel feito,
para uma das flores irmanadas em harmonia...
e menos de se esperar não seria
vir, de uma flor para outra flor,
ver o bálsamo para crua agonia:
por enquanto, de bom, o mel lambe-lhe a dor
e, lambendo sua nua forma, o mau desejo (se) alivia
(d)a profunda picada no peito que lhe deu Amor...
da complexidade dos sentimentos e emoções
não há nada tão certo sobre a terra
quanto aquilo que menos supões:
o amor é mais difícil do que a guerra!...
a tarde pública se guarda em metralhadoras
gasta-se a vida no hermetismo da rosa
flor que ronda as manhãs conquistadoras
de mais noites despetaladas em sua rota
quarto
quadro
quatro
o que importa é o gado:
importa a fome massificada
em alimento logo preparado
nesses pastos de mais nada
gado enganado e engordado
com o pó da vida minguada
remarcado e feliz esse gado
exporta a força da boiada
gado descuidado, embriagado gado
pelo verde e a água da chuvarada
em seu couro, pelo sol salgado,
o viver se curte na vida parada
o que em parte é o gado
comporta a forma nulificada
sem a(u)limento: o só arrebanhado
desde o mato até menos cada
a morte industrializada
sob o rótulo “VIDA”
abastece em cada rês
a existência perdida
américa, soy loco por ti, de amores,
mesmo sem a guerrilha do povo
e com a mesmice de outras flores
mais vale sonhar o teu sonho sempre novo.
américa, soy loco por ti, de amores,
é tua a vida em que me movo
por entre tons de várias cores
mas todas saídas de próprio ovo.
américa, de amores, soy loco por ti,
pelos longos quinhentos anos
de curtir a rexistência que vivi.
américa, por ti, soy loco de amores,
e por todos los hermanos
que repartem alegrias e dores.
“prima quae vitam dedit hora carpit”
O amor na vida se apresenta
para alguns como chama calma
para outros como vã tormenta
que só desgosta mais a alma
Sentimento de cargas opostas
que desgastam toda resistência
por vezes sem mostrar respostas
apesar de toda uma existência
Para alguns é a própria vida
para outros a própria morte
emoção da razão dividida
sem ter rumo sul ou norte
Amor
Cantiga alegre ou triste
sombras claras ou furtivas
de algo que somente existe
em almas mortas e vivas...
drama
minha paixão é bela
e, tristemente, assim:
eu não vivo sem ela,
ela vive sem mim...
de tudo o que se leva adiante
para o poeta popular Zé Bezerra
Que não se tema o caminho
Nem a ânsia da procura
Pois somente o carinho
Já é muito de ventura
Beserol
A vida em si acaba contendo
Um dilema bem difícil de tratar:
Ou se vive amando, e sofrendo,
Ou se sofre então, por não amar...
Disfarce
A beleza é o disfarce
Da ignorância para que
A paixão possa expressar-se
Como vida do vir ver...
SAUDADE
Saudade,
Fantasma da presença,
Distância que é quase nada
Para a pessoa que pensa
Na outra pessoa amada...
Saudade,
Encontro na distância,
Num único pensamento:
Duas vidas nessa ânsia
De viverem o mesmo momento...
Saudade,
Espaços vagando no tempo, na vida,
Futuro presente de um passado
Vivenciando a lembrança da presença querida
Em um encontro distanciado.
Saudade,
É algo para se pensar:
Como viver essa realidade
Se, de tanto e tanto amar,
Se ultrapassa a felicidade?...
Soneto polimétrico I
É preciso um pouco de carinho
mesmo com todos os perigos
pois em se abandonando o caminho
não se chega jamais aos destinos contíguos
É preciso um pouco-muito de confiança
e mais de vida na vida em flor
para que ainda exista esperança
num mundo fechado para o amor
É preciso que ainda se encontrem
no carinho um homem e uma mulher
para que nesse encontro se encantem
e façam renascer num gesto de fé
tanto amor quanto existia ontem
para a vida reviver, como se quer...
© Cláudio Carvalho Fernandes 2014-2025.