A música é uma manifestação cultural e social incrível. Mesmo que grande parte seja feita para dançar e se divertir, temos incríveis exemplos de quando a música é usada para fazer críticas sociais.
As canções de protesto tem como objetivo trazer a tona problemas sociais, políticos ou econômicos de seus recortes históricos.
Em todos os lugares do mundo, inúmeras vezes, a música foi utilizada como voz sobre algum assunto. Aqui no Brasil, por exemplo, a música foi reconhecida como uma grande voz contra o período da ditadura militar.
As músicas eram tão poderosas que resultaram no exílio de muitos artistas incríveis como Caetano Veloso e Chico Buarque.
Separamos as canções de protesto mais emblemáticas para você conhecer um pouco sobre a história e o poder por trás de cada uma delas.
Vamos relembrar as melhores canções de protesto e falar um pouco sobre o contexto social e político em que cada uma está inserida. Começando pelo nosso Brasil:
Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores foi considerada um hino da resistência popular e estudantil em oposição à ditadura militar. A partir da AI-5, que institucionalizou muitas práticas não democráticas, incluindo a censura, a canção foi proibida.
Uma das provas de que essa música foi extremamente influente para sua geração e contexto histórico foi ela ter vencido em segundo lugar o Festival Internacional da Canção em 1968.
Em sua letra, Geraldo constrói uma narrativa de incentivo à resistência e esperança para a derrubada do governo. Trechos como caminhando e cantando eram ecoados em inúmeras manifestações contra o governo.
Geraldo Vandré foi perseguido pelos militares e foi forçado a exilar-se, após passar dias escondido na fazenda da família do escritor Guimarães Rosa.
Alguns anos após a música de Vandré, Chico Buarque apresentou Cálice ao Brasil. Originalmente escrita e interpretada com ajuda de Gilberto Gil, foi criada em 1973, mas só foi lançada 5 anos depois, em 1978.
Isso porque sua letra é repleta de metáforas, fazendo analogias à ditadura militar e a problemas muito graves como o envolvimento de políticos em mortes, tortura, repressão e censura. Infelizmente, como a canção de Vandré, Cálice também foi censurada.
É uma canção extremamente inteligente pois tenta driblar a censura que pairava no país. Exemplo disso são trechos como:
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Chico faz um jogo de palavras com cálice e a expressão cale-se. E que o ato de se calar, ou seja, a censura por trás estaria suja de sangue.
Alegria, Alegria, composta por Caetano em 1967, foi o marco do tropicalismo. Por ser uma música extremamente poética, muitas pessoas têm inúmeras formas de interpretá-la. Mas, sem dúvidas, uma de suas interpretações é sim sobre a ditadura.
A canção tem inúmeros trechos que trazem a ideia de liberdade, rebeldia e sofrimento – todos sentimentos muito presentes da oposição e resistência ao governo ditatorial do Brasil na época.
Sim, Chico Buarque era incrivelmente engajado no seu contexto político. Apesar de Você também foi uma canção de protesto escrita pelo autor. Após seu auto-exílio na Itália, Chico voltou ao Brasil sob promessas de que o país estava melhor. Mas não foi isso que encontrou.
O cantor, então, percebendo que o contexto nacional ainda vivia sob a sombra de desaparecimento, tortura e falta de expressão, escreveu a música, que faz uma analogia da repressão e da tristeza sobre a falta de liberdade da ditadura militar à briga de um casal de namorados.
Chico ficou surpreso quando Apesar de Você foi liberada pelo departamento de censura. Porém, quando as vendas do compacto contendo a música atingiu 100 mil cópias, um jornalista insinuou que a música seria para o atual presidente Médici.
Após a declaração, a gravadora foi invadida, cópias foram destruídas e Chico levado a interrogatório. Lá, Chico afirmou que música era sobre uma mulher muito autoritária. A canção só foi regravada e lançada oficialmente em 1978, 8 anos depois.
O Bêbado e a Equilibrista é, para muitos, o hino do período de anistia e do início do declínio da ditadura militar.
Composta por João Bosco e Aldir Blanc, foi na voz inconfundível de Elis Regina que ela ficou conhecida.
O que começou como uma homenagem à Chaplin, guardava versos tristes e que remetem aos duros tempos de ditadura. Como nos trechos onde Choram Marias e Clarisses que faz menção a Maria, filha de Manoel Fiel Filho, e Clarisse Herzog, esposa de Vladimir Herzog. Os dois morreram nos porões do DOI-CODI em sessões de tortura por fazerem parte da frete de oposição ao governo.
A ditadura militar foi uma época muito triste e dura da nossa história, mas foi muito frutífera na arte. É um momento extremamente delicado que só obras de artes como as músicas acima poderiam transmitir com tanta poesia, mas com o peso do protesto contra as atrocidades que aconteciam.
Embora tenha sido um período muito crítico e triste da nossa história, os nossos artistas extremamente talentosos conseguiram transformar tristeza em poesia para protestar contra atitudes antidemocráticas.