Cláudio Carvalho Fernandes
"A existência precede a essência"
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Aventuras na história : Os festivais dos anos 60 que mudaram o significado da MPB Terra Brasilis A coroação da MPB Os festivais da canção exibidos por emissoras de TV entre 1966 e 1968 ...

 

http://historia.abril.uol.com.br/2006/edicoes/terrabrasilis/mt_212540.shtml

 

Aventuras na história

 

Os festivais dos anos 60 que mudaram o significado da MPB

 

Terra Brasilis

 

A coroação da MPB

   

 

Os festivais da canção exibidos por emissoras de TV entre 1966 e 1968 seduziram o público, abriram alas para o tropicalismo e mudaram o significado da expressão "música popular brasileira"

 

Celso Masson, com reportagem de Cristina Mucci

 

 

 

Houve um momento em que o Brasil inteiro cantava. Nas escolas, nas ruas, campos e construções. Geraldo Vandré ainda não havia sequer rascunhado os versos em que falaria de flores, mas o país caminhava, dançando conforme a música.

Eram sambas, marchinhas, bossas, modas de viola. Até iê-iê-iê se assoviava. Nem o golpe militar de 1964, que mal havia mostrado todos os dentes, parecia capaz de estancar o ânimo dos brasileiros para a cantoria.

As melodias ocupavam bares, teatros, o rádio e a televisão. Nas grandes cidades, onde a força da TV já se impunha, o povo se dividia entre "disparados" e "bandidos", os fiéis torcedores daquilo que realmente importava: "A Banda" ou "Disparada".

Qual canção merecia vencer? Era outubro de 1966, e o júri convocado pela TV Record, temendo uma tragédia, decidiu pelo empate.

 

 

 

Venceu Chico Buarque de Holanda com "A Banda", cantada por Nara Leão. Venceram também Geraldo Vandré e Théo de Barros com "Disparada", interpretada por Jair Rodrigues.

Mais que uma disputa, foi uma festa - e com trilha sonora da melhor qualidade. A cultura dos festivais da canção se consolidava naquela final, tão eletrizante quanto justa. Começava ali um novo ciclo da música brasileira, cujo apogeu criativo se daria no ano seguinte.

 

 

 

Em 1967 entrou em vigor a Lei de Segurança Nacional, em que a ditadura militar apertava o cerco sobre o país - entre os crimes previstos estava o de "guerra psicológica", no qual poderiam ser enquadrados aqueles que discordassem publicamente do governo. Mesmo assim, uma safra raríssima de compositores e intérpretes não se intimidou.

Foi à TV em outubro defender com sangue, suor e lágrimas um repertório capaz de mudar o país. "Ponteio", "Domingo no Parque", "Roda Viva" e "Alegria, Alegria" foram as quatro primeiras colocadas em um festival que chegou ao fim com Roberto Carlos na quinta posição.

Ainda hoje, a força daquele momento reverbera nas canções que o tempo não cala. Mas, se parece inimaginável que Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e Edu Lobo possam competir entre si, o fato é que 40 anos atrás isso aconteceu. Foi exatamente assim que nasceu a MPB.

 

 

 

Da TV para o disco
 

É verdade que a sigla para "música popular brasileira" já existia àquela altura. Ela batizava inclusive o grupo que acompanhou Chico Buarque em "Roda Viva" e outras canções, o MPB-4. Só que as três letrinhas serviam para abreviar um baita nomão, que soma dez sílabas e que era usado indistintamente para todo tipo de música cantada no país, da chula dos pampas ao baião nordestino.

Tudo o que não fosse erudito era música popular brasileira. A chegada da geração de compositores da qual hoje faz parte o atual ministro da Cultura, Gilberto Gil, deu outro significado àquela sigla. Produto de seu tempo, a MPB se depurou intuitivamente a partir da convergência dos vários elementos sonoros que perpassavam todo o cancioneiro nacional. Até que virou um gênero autônomo.

 

 

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Ao contrário de significar qualquer coisa, a MPB tornou-se, na segunda metade dos anos 60, um estilo bem definido em termos de música e letra. Uma sonoridade tão identificada com a cultura popular que pôde tomar esse nome emprestado.

Tão além do regional que fez sucesso em todo o país. Era música. Era popular. Era brasileira.

E foi legitimada junto ao público graças ao sucesso das canções apresentadas nos festivais de 1966 e 1967. Com eles, em vez de chegar ao público pelo rádio, a música entrava na casa das pessoas pela TV, e só depois pelo disco.

Junto com cada nova canção vinha a imagem de uma época: Elis Regina com seus braços ensandecidos subindo e descendo enquanto cantava "Arrastão"; os Mutantes em figurino psicodélico; Sérgio Ricardo e sua famosa "violada" no auditório. Aquilo era excitante, transgressor.

 

Mesmo que o termo tenha ficado datado, a forma da MPB urdida naqueles festivais dura até hoje. Que outra nomenclatura poderia servir à obra de Djavan, à de Lenine ou à de Chico César? O que eles fazem, ainda que a partir de influências distintas, é MPB, e deriva em grande parte daquele som que se cristalizou nos bastidores da TV Record em fins dos anos 60. Disso não há dúvida.

 

O que pouca gente sabe, contudo, é que quem nos presenteou com a invenção da MPB foi Solano Ribeiro, o homem por trás dos festivais e que com eles se confunde. Sua vida está contada na autobiografia Prepare seu Coração. O livro explica, entre outras coisas, como a TV foi fundamental para que o Brasil conhecesse o melhor de sua música. Mais ou menos o oposto do que ocorre hoje.

 

O maior ibope
 

A televisão abriu espaço para a música porque ela dava audiência, como já havia ficado claro em programas como Brasil 60, apresentado por Bibi Ferreira na Excelsior, e O Fino da Bossa, com Elis Regina, na Record - o maior sucesso da TV naquela época. Mas o casamento, mesmo por interesse, foi feliz.

A música, da velha à jovem guarda, conseguiu ocupar seu espaço na telinha. Isso ficaria ainda mais evidente quando o produtor Solano Ribeiro, que trabalhava na Excelsior, teve a idéia de reproduzir a fórmula já consagrada na Itália pelo Festival de San Remo, do qual Roberto Carlos havia sido vencedor, em 1968, com "Canzone per Te".

Ao contrário do italiano, o festival de Solano não teria qualquer participação das gravadoras ou editoras de música. "Minha estratégia era colocar no mercado uma porção de músicas, cantores, cantoras e conjuntos musicais, e as gravadoras que se servissem, de acordo com a sua agilidade e competência", recorda Solano. Bastou essa sacada para renovar radicalmente a música brasileira.

 

O festival era a grande oportunidade para que novos talentos pudessem "se vender". Mas sua contribuição para a música foi bem maior. A TV, querendo ou não, virou a plataforma de lançamento da tropicália, que jamais teria feito o barulho que fez se ficasse longe das câmeras.

Por mais que Caetano e Gil tenham entrado para a história como criadores daquele movimento, o tropicalismo não existiria sem algumas das cabeças que trabalhavam nos bastidores dos festivais, entre elas o próprio Solano Ribeiro, além dos maestros Júlio Medaglia e Rogério Duprat.

 

Foi Solano quem deu um empurrãozinho para que Caetano compusesse "Alegria, Alegria", como ele mesmo recorda: "Eu tinha uma visão clara da música no Brasil e no mundo. O rock dos Beatles e dos Rolling Stones estava aí. Por outro lado, vi que a música brasileira precisava sair do binômio mar/campo. A juventude estava ligada no mundo urbano, até nas cidades do interior do Brasil, onde havia vida universitária. Percebi que a música precisava de temática urbana", diz.

"Em um encontro com Caetano, falei para ele que era preciso inventar uma nova estética. Dias depois o Guilherme Araújo, que o empresariava, apareceu e disse: 'Meu querido, você não acredita. O Caetano fez uma música sensacional, coerente com tudo o que você disse. O nome é 'Alegria, Alegria'".

 

 

 

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O refrão, que indaga "Por que não? Por que não?" foi o ponto de partida para o que viria depois. Mas o choque que a canção representou começava logo nos primeiros acordes, escritos pelo maestro Júlio Medaglia.

 

"A grande surpresa no arranjo de 'Alegria, Alegria' era o fato de ser uma marcha-rancho bem convencional tocada por instrumentos eletrônicos", explica o maestro. "Quando o Caetano entrou com aquelas guitarras elétricas, o público vaiou imediatamente.

Só que no decorrer da música ele convenceu - e acabou aplaudido." O mesmo não aconteceu no festival do ano seguinte, quando Caetano apresentou "É Proibido Proibir" e foi vaiado do começo ao fim. "O Caetano foi vanguarda", afirma Júlio Medaglia. "Sua postura no festival de 1968 representou uma tomada de posição importantíssima.

 

O tropicalismo significava uma abertura para todos os tipos de linguagens, de idéias e de componentes não-musicais que integrariam a música brasileira a partir dali. E a ala mais reacionária, inclusive dos estudantes, estranhou aquilo tudo.

Esse reacionarismo fora do comum deu ainda mais força para o movimento, a ponto de Caetano encerrar sua apresentação com aquele discurso tão contundente, resumido na frase 'Se vocês forem para política como são para estética nós estamos feitos!'"

 

Ainda que as grandes controvérsias, inclusive no palco, tenham eclodido no festival de 1968, que durou dois meses, entre novembro e dezembro, o de 1967 permanece cotado como o mais importante do ponto de vista musical. As canções nele apresentadas continuam no gosto popular, e a audiência da Record ainda é a maior de todos os tempos: com 97 pontos no Ibope, a final entrou para o Guiness Book e nunca mais foi superada.

 

A participação de Solano Ribeiro e Júlio Medaglia na definição do que viria a ser a MPB não se limitou a encorajar Caetano Veloso para que hasteasse a bandeira tropicalista. Junto com os demais jurados dos festivais, coube a eles fazer a triagem do que merecia espaço na TV e o que deveria ficar de fora.

A pré-seleção das canções inscritas foi feita na edícula da casa em que Júlio Medaglia morava com os pais, num pequeno espaço transformado em estúdio. "Naquele quartinho é que nós fazíamos as análises. Ninguém sabia que a gente estava lá. O assédio em relação ao júri do festival era tão grande que só dessa forma nós podíamos trabalhar sossegados", afirma Júlio, recordando que seu pai costumava servir caipirinhas para animar os trabalhos. Os jurados eram, entre outros, Décio Pignatari, Augusto de Campos, Roberto Corte Real, César Camargo Mariano e Amílton Godoy, "gente de primeiríssima qualidade", como diz o maestro.

 

Com milhares de canções para ouvir, essa turma teve o mérito de fazer uma seleção inquestionável. Claro que muita gente chiou por ter sido descartada - e a Record, considerando o apelo dos que se diziam injustiçados, fez um festival só com os desclassificados.

Um dia após as canções dos "sem festival" terem sido apresentadas, o Jornal da Tarde
estampou na capa a manchete definitiva: "O júri tinha razão". Quase 40 anos depois, o veredicto continua valendo.
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Leia a matéria completa em
História 43, nas bancas

 

Festival de 1985 (exclusivo no site)
Realizado pela Globo, o evento foi um fracasso musical

 

http://historia.abril.uol.com.br/2006/edicoes/terrabrasilis/mt_215000.shtml

 

"Você pra mim foi o sol"

O festival de 1985 se tornou uma tragédia musical

Em 1985, a TV Globo chamou Solano Ribeiro para produzir aquele que seria o Festival dos Festivais. Solano topou a parada e convidou para o júri da pré-seleção nomes com os quais já havia trabalhado.

Um deles era o pianista César Camargo Mariano. Para agilizar a troca das fitas durante as audições, César chamou seu enteado, João Marcelo Bôscoli, filho de Elis Regina e então com apenas 14 anos.

Ele entrou no festival justamente por ser um garoto, enquanto os outros jurados eram todos veteranos, que tinham feito o mesmo trabalho 20 anos antes. João Marcelo não estava ali para opinar, mas a impressão dele às vezes era levada em conta.

"Ao meu lado havia uma caixa cheia de fitas. Eu pegava uma, punha no deck e apertava o play. Cada jurado segurava um bichinho de brinquedo, desses que fazem barulho. Dependendo de quantas cornetadas a música levasse, ela era descartada ou selecionada. O júri ouviu tudo o que chegou", conta João Marcelo, hoje presidente da gravadora Trama.

"Não me lembro de ter havido qualquer injustiça, no sentido de excluir uma música que merecesse mais atenção", garante. Segundo ele, a preocupação era conseguir fechar um repertório que justificasse as expectativas que a Globo havia criado para o público e para os anunciantes.

Mas o que aconteceria se a qualidade fosse baixa? Pois foi exatamente isso o que ocorreu.

O festival terminou de forma frustrante, premiando canções que hoje ninguém merece ouvir, como "Escrito nas Estrelas", cantada por Tetê Espíndola. João Marcelo tem uma teoria para tamanho insucesso: "Os festivais deram certo nos anos 60 porque eram o substrato de um processo que estava consolidado em todo o país. A TV aproveitou aquele momento e soube fomentá-lo. A verdade é que em 1985 a música brasileira não vivia uma fase excepcional. Não adianta pegar alguém do nada e dar um prêmio", conclui.

É. Mesmo sem ser saudosista, fica difícil fugir ao chavão "não se fazem mais festivais como antigamente".

 

Geraldo Vandré
Quase 40 anos depois de "Caminhando", hoje ele se dá bem com os militares

 

http://historia.abril.uol.com.br/2006/edicoes/terrabrasilis/mt_212543.shtml

 

Das flores aos aviões

Um dos grandes heróis dos festivais, Geraldo Vandré abandonou a carreira e vive no anonimato

 

Vitor Nuzzi

 

Vandré toca no festival de 1968: hoje ele se dá bem com militares

 

Nunca uma vice-campeã fez tanto barulho num festival. "Pra Não Dizer que Não Falei das Flores", ou "Caminhando", de Geraldo Vandré, ficou apenas em segundo lugar na fase nacional do 3º Festival Internacional da Canção, promovido pela TV Globo em 1968 - perdeu para "Sabiá", de Chico Buarque e Tom Jobim. Mas até hoje é cantada em toda manifestação de rua.

Tornou-se a "Marselhesa" brasileira, em definição de Millôr Fernandes. Ou a "anti-Marselhesa", segundo Nelson Rodrigues. E marcou a despedida involuntária de Vandré, que nunca mais tocaria profissionalmente no Brasil.

De todos os artistas famosos que deixaram o país no período do regime militar, foi o único a não retomar a carreira. Só ameaçou voltar em 1982, quando cantou no Paraguai.

 

Para alguns, "Caminhando" foi uma resposta a setores da esquerda que criticaram Vandré após o 1º de Maio de 1968, quando manifestantes de esquerda apedrejaram o governador paulista Abreu Sodré - o compositor foi "acusado" de ter se solidarizado com o político. O ano era conturbado, e a música, como era de se esperar, repercutiu mal nos meios militares.

Maquiado e de passaporte falso, Vandré deixou o país durante o Carnaval de 1969. Voltou ao Brasil em meados de 1973. Em novembro de 1970, gravou na França o seu quinto e último LP, Das Terras de Benvirá.

 

O sobrenome artístico veio do segundo nome do pai, o médico José Vandregísilo. Geraldo Pedrosa de Araújo Dias nasceu em João Pessoa (PB), em 12 de setembro de 1935. Começou a cursar o ginásio no colégio São José, em Nazaré da Mata (PE), entre 1949 e 1950.

Nos dois anos seguintes, estudou no colégio Granbery, em Juiz de Fora (MG), onde também estudou o ex-presidente Itamar Franco. De 1957 a 1961, estudou Direito na Universidade do Distrito Federal, atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

 

Aos 71 anos, Vandré optou pelo anonimato. Mora sozinho no centro de São Paulo, mas viaja constantemente. No início de novembro de 2006, esteve no Rio e ficou hospedado, como de outras vezes, no hotel do Clube da Aeronáutica. Tem paixão por aviões - desde criança, segundo ele.

Em 23 de outubro de 1985, compôs "Fabiana", em homenagem à Força Aérea Brasileira. Segundo pessoas próximas, ainda faz música, inclusive erudita. Em raríssimas entrevistas, negou ter sido preso ou torturado.

 

 

 

 

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Cláudio Carvalho Fernandes, "Sites" especializados em MPB na internete e Terra Brasilis.
Enviado por Cláudio Carvalho Fernandes em 08/12/2024
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